sexta-feira, 4 de maio de 2012

ai que ainda retorno

embora enfim ainda não vim ai que retorno em duros vais e vens do tempo esmagado

sábado, 12 de dezembro de 2009

Seinão

O mundo tanguiu
Ao redor da jibóia branca
De cujo rabo se faz
O pipo

Pipo que leva
O bacuri esquecer
Do peito que já
Leite não dá

Pois todo esse leite
Vai
Vai é que vai
De modo seinão
Prá jibóia tufar

Bichos 4...

Frederico Galante

Bichos 3...

Frederico Galante

domingo, 16 de agosto de 2009

Foto: Marina Quinan

Nhô Romualdo

Nhô Romualdo, um que era pai de tantos. Espia, que aquelas malocas quase todas eram de filhos seus. Uns quinze por certo. Diz que foram doze com Dona Sebastiana e mais três com a Dona Suzete, que tomou o posto da finada depois de uma chuva de raio. Foi num descuido da velha trabalhadeira, que, num dizer de páro-não, continuou tirando mandioca mesmo depois do céu ficar prá mais de preto, no anúncio do temporal. Acharam a Sebastiana lá mesmo na roça, durinha que tava toda e mais negrinha, mas segurava em prumo, o braço apontando para o céu, como se fosse por motivo de honra, a última macaxeira, que, dizem todos, para tirar de sua mão foi preciso é quebrar os dedos da velha.
Tava tal-que, hora de almoçar. Num não dizer de dois amigos, como os quais Jordão e Romualdo. E fizeram as honras, apresento de Quinlhão, amigo seu, vindo das terras do longe terreno que era beira do mar e do Zé Canela, que era sujeito de pouca fé este, mas que guinava os ouvidos para escutar as histórias. Foram os quatro de olhar sorrido para a morada do Romualdo, dia de galinha caipira. Encontraram Suzete no fogão de barro, abanando lenha. Que fez foi além-de, tirou cadeira para todos sentarem. Mais a água da moringa, nas cuias. A mulher do Romualdo, de mais respeito se fazia, e ralhou com Zé Canela, que não tirou a sandália de couro surrado, já pelas tantas, para adentrar o terreiro de chão batido que formava a cozinha, ela mesma entrada da casa.
"Podem sentarem!"-dizer da Dona Suzete perante o acanho dos três, acabrunhados. Tinha a mesa recém construída pelo Romualdo, matéria de angelim, que se encostava na única meia-parede que se estendia para o lado do fogão e do forno. Pro cima da mesa, tinha é restos de bolacha e biscoito e uma panela de ferro com café preto, passado sem coar mesmo, apenas no descanso do pó para o fundo da panela, auxiliado era pelo uso de uma lenha em brasa, que continuava acesa bem ali do lado da tigela. Fazer mesmo dos tapuios, que preparar café em fogueira se dá é assim, com o uso da brasa, para mandar o pó fervido descansar no fundo. Se via que tinha ali muitos bacurizinhos, que faziam a bagunça da mesa em modo de não vencer. Mais que tivesse ralhos da Suzete, algum moleque havia de pegar bolacha escondida e fazer de sujar a mesa novamente. Apesar de dar castigo e pegar sova de cipó-titica.
"Muito obrigado, Nhóra". Era Jordão que dava o aceno primeiro do encontro. E o coro dos outros dois fizeram que seguiram o primeiro. "Nhóra", "Nhóra". "Pois é senhores, benvindos aí a minha tapera, que pouco tem mas muito se dá", anunciou Romualdo. "Este aí, Seu Jordão, velho amigo, faz tempo que não aparece por estas bandas, tá é de mal com a gente, pô?", continuou. "Fale isto não Romualdo, que aqui é terra minha também, ocês tudo são é como meus parente. Tô mesmo é ocupado pelas bandas lá da várzea, onde tô é c'umas cabêças de gado criando. Mas vindo venho agora, trago comigo aí uns compadres, que tão de viagem para a cidade grande e tão um pouco precisando de paragem por uns dias, que sei que de lugar para ficar é sempre farto por aqui, mas-de, ainda, com a hospedagem especial do Sinhô, velho amigo Romualdo". "Faz certo de pensar, Sinhõ Jordão, gente nova é que apreciamos por estas bandas, inda mas vindo em paz e com motivo de conhecer nossa terra, e saborear da nossa comida, que graças ao bom Deus, tem de muito aqui sempre!".

domingo, 9 de agosto de 2009

Outras interrupções...Arraiol

O senhor sabe que eu sou assim, jitinha assim, mas já uso sutién?! Sim, que logo já quero ser mamãe. Mamãe usa sutién e tem peitão. Então eu penso que, se eu desejar com firmeza e usar sutién, assim ligeiro vou ter peitinho e poder ter neném. Aí vou cuidar dele bem direitinho, que já sei. Vou segurar o neném assim forte abraçada e fazer ele dormir e parar de chorar.
Eu moro numa casa nova agora, que a que eu morava foi pro fundo no lanço da maré. Aí papai deixou ela que foi só ali, toda escangalhada e construiu outra, agora mais para dentro da terra firme, com o quintal cheio de bois, que dá até de montar neles e passear pelo campo.
Eu tenho um quarto só meu, bem do lado do quarto do maninho. Eu tenho uma janela bem grande, que vejo a vila toda. É muito bom, dá de ventar e de espiar tudo o que acontece no trapiche. Vejo o comprido do igarapé, o porto, as pessoas que chegam e até o campo de futebol do outro lado do rio. É lá que papai e todos os ômi da vila vão toda tarde jogar bola, depois de chegar do roçado.
Maninho também jogava bola ali. Antes dele ir embora. Triste que foi, Maninho sumindo no rio e eu gritando sem poder fazer nada. Eu chamava Maninho e ele não ouvia e papai não chegava. E eu gritava, gritava e achava que ele ainda ia ouvir e voltar do fundo do rio.
Ele, Maninho, nadava tão bem! Quando papai ia levar a gente prá lancha, Maninho que pegava o bote. E ele agarrava o nó lá no fundo do igarapé, ficava até quase dois minutos prá baixo da água. E eu esperava na beira, certa que ele ia conseguir voltar para pegar ar e trazer o bote, sem o nozinho. Minhas amigas todas ficavam de mirando o Maninho e eu pulava e dançava de orgulho e de feliz que Maninho sempre conseguia. Desta vez, ele não conseguiu e não voltou. Mas mamãe me disse que ele fez é nadar direto para o céu e que ele sempre vai vir visitar a gente para matar a saudade.
Aí toda noite eu rezo. Pro Maninho vir me dar um abraço. Eh, mas que tô com uma raiva dele, que nunca veio me abraçar! E já foi abraçar mamãe, que ela me contou. De mim, só vi um dia uma luz bem forte, que eu achei que era Jesus. E quando eu olhei bem direto para ela, ela desapareceu. Eu penso: vai ver que era Jesus ou o Maninho, que estava tentando vir me abraçar, mas não consegue. Então tô torcendo prá ele vir me abraçar do mesmo jeito que torcia para ele voltar prá beira do igarapé. E fico torcendo até dormir e sonhar com um montão de coisas, que não consigo lembrar.
Ei, senhor, embora lá, que quero aprender aquela pirueta que o senhor fez ontem com a gente. Vai, vamu! Depois, conto mais. Eh, ah, ufa! Isto dá é espanto, senhor. Mas agora faz daquele jeito torcido, vai, faz mais, por favor?!
Ei, isto aí que o senhor faz, as piruetas, eu peço que faça também com o Miguelzinho, que é muito gaiato. Ele vai aprender rápido, danado de macaquice. O senhor sabe o que se deu com ele?! Aquelas marcas todas nas costas dele, a casa dele foi que pegou fogo! E ele não saiu a tempo. Se queimou tudinho. Mas ele era bem miudinho, foi crescendo e as marcas tão afrouxando, para sumindo tomara Deus. Agora ele fica dizendo para todo mundo que quer ser bombeiro.
A mãe do Miguelzinho foi embora, deixou ele só com o pai e com a avó. Eles ralham bem com ele. Também, o Miguelzinho é muito malino, apronta demais. Se ele pedir para o senhor a palavra pop, dê cá seu shorts, que eu vou escrever ela-palavra. Pois, se ele pedir pop e o senhor não tiver escrito em nenhum lugar, o senhor vai ter que pagar um bom-bom para ele. E o Miguelzinho é bem chato, fica é te cobrando e num para de pedir tudo que vê pela frente. O senhor que dê corda para ele: ele não pára mais e vai grudando firme que nem carrapato.
O Miguelzinho era amigo do Maninho, tem foto, quer ver? Mamãe e papai te mostram o quarto dele e o armário que fizeram com todas as coisinhas do Maninho, titicas. Eles gostam, de sentir honra, de lembrar do Maninho. Modo de dizer, que o senhor vai ver e se d´mirar com o barquinho que ele fez um dia antes de ir embora. E as roupinhas todas dele, que ficam guardadas em volta das fotos suas, umas com os amiguinhos e outras de roupa de posar prá foto, de shortinho e camiseta.
Lembro agora dos ômi graúdo mergulhando que era a comunidade inteirinha, descendo pros fundos do rio atrás do corpinho do Maninho. E nisso foi mais de hora. E tia Sandra gritava: -Calma, que é outro que vai morrer!. Ai, meu Deus, todo o desespero do mundo!
Choramos Maninho foi um mês todo dia e noite. Mas papai chorou mais, de modo diferente. O choro dele era de modo sem lágrimas, era meio oco, sei não, papai não conversava direito e esquecia de tudo. Foi que, tudo estranho. Depois veio aquele dia da pororoca. Quatro meses depois. Tia Sandra sabe bem, mas não diz não. Depois da pororoca ficou mais cabrêra, modo de chegar menos perto. Aquela pororoca que virou o barco de papai umas quinze vezes, de certo sabe o senhor. E eu tava lá, que vi papai ficar dentro do barco, que girava, tacando as crianças jitinhas tudo afora pela janela da lancha, salvando todas elas. Eu sentindo bem dentro um orgulho forte de papai, mesmo que sentia de Maninho.
Antes eu tinha era raiva de papai, porque que ele tinha deixado o Maninho morrer?! Depois da pororoca senti mais menos, até acabar. Acabou de vez. Agora amo papai, que sei que ele vai me salvar toda vez que eu precisar. Papai sabe de tudo, sabe o senhor?! Ele entende do mato e dos nomes tudinhos das árvores, dos peixes e das caças. Tem vez que papai entra no mato e fica é três dias para pescar e caçar. Lá ele arruma o de comer e beber. Aí ele volta com um mundo de caça, que é paca, veado, tatu, jabuti, marreco, tudo prá gente comer depois da mamãe limpar, ficando demais de boa.
Aí o pai junta a gente e conta o sucedido com ele e com os amigos dele, os rio-beirinhos para aí debaixo. Caso seu, foi que encontrou um boi todo escangalhado, mas cortado feito gente-homem que tivesse agido. A carne tava era cortada mesmo no lugar certo. Mas tinha perto as pegadas da onça, o pai sabe bem dizer.
Foi que então, o pai e os amigos conhecem bem o mato, num era de espanto se a onça voltasse, que sempre ela volta prá devorar a carne morrida. Pai e os amigos então esperaram foi é pra mais de seis horas, quando a onça voltou, boca da noite. Veio sorrateira, barulho não fez, pois onça lambe as patas e anda com as folhas do mato pegadas, motivo de silêncio. O pai e os amigos souberam dela pelo cheiro. De morte. E foi que atiraram nela os quatro, os quatro: pai, Zé Cachaça, Idalino e seu Quinlhão. A onça, ligeira, nem sentiu o trisco das balas, sumindo pro mato. Pai e os três outros saíram atrás dela.
O senhor sabe que onça se esconde em tronco de Samaúma?! E foi assim que ela procedeu. Os quatro então deram de desferir golpes com terçado, ticando, de fora prá dentro, na toca da Samaúma. A onça mostrou que era mais ligeira e, mexendo dentro da toca, nem relou na faca do facão. Foi que, por medo de bote maior da onça, que Seu Quinlhão arrazoou de atirar com o rifle prá dentro da toca. E popocou mais de cinco tiros até começar a sair sangue pelos cortes do terçado. Era sangue e grito de onça, que demorou tempo. Ficaram lá, então, os amigos todos de espreita até o sem-sinal da vida da onça. Disse o papai que o couro do gato ficou com o Seu Quinlhão, que levou para casa sua na Vila Progresso.
Sim, todo o tempo do mundo eu penso em papai e no Maninho. Mas penso também na Isabela, que acho que ela é bonita demais. E acho que é ela que é que vai de primeiro ser mamãe aqui na vila. E penso também em minha mãezinha, que é prima de papai. Tem gente que fala que não pode casarem primos. Que dá é filho com problema. Mas, espia aí, tenho problema nenhum não, senhor. E penso também que meu cabelo é bem bonito. Gosto de passar o pente nele, tirar aqueles nós tudo que se faz no vento daqui da beira. Que é lá que a gente joga bola e brinca com a Sofia.
A Sofia é a capivara que mora lá na casa do Seu Pedro. Ela é danada, sim senhor. Corre atrás de bola no jogo de futebol, nada no rio com as pessoas e atrás das canoas que saem para pescar. A Sofia deixa a gente até pôr o dedo na boca dela e fica mamando que nem mamadeira. O Miguelzinho, isto eu num gosto, num é certo não senhor, sempre bate na Sofia, motivo de malino que ele é. Ele bate até no Jitão, o boi preto que vive atrás da casa do Julinho, prá baixo do trapiche. O Jitão nunca fica bravo, ele só se levanta, roda o rabo que nem ventilador e vai encontrar os outros bois, como se o Miguelzinho fosse mesmo só uma mosquinha, um carapanã-zinho.
Embora lá, o senhor já viu as paiáças?! Que tão aqui na vila já faz uns dias?! Embora lá, que elas são muito engraçadas. Tem uma, a Bifi, que sobe nas árvores todas daí, parece macaca! E a outra, a tal de Quina, fica lá no pé mandando a Bifi descer. Muito engraçado, mesmo. Aí a Bifi sai correndo, esbarrando em tudo, quase caindo, e a Quina corre atrás, êta. Mas que dá é vontade de correr bem juntinho, que sempre sucede outra doidêra da Bifi.
Num é que as duas, a Bifi e a Quina, levaram as calças do tio Pedro e do papai, as calças de pescar e de caçar?! E vestiram, coube sei como, não! E as calças tinham um rasgo bem grande, bem aqui, na bunda. Muito engraçado! Parecia que as duas iam elas mesmas lá pro mato caçá. Aí, elas entraram na casa do tio Joca, que é meio bravo, sabe?, mas que num disse nada quando elas entraram. Elas então viram que a parede da casa do tio Joca é pintada, como é mesmo a mata e os rios. E aí a Bifi começou a nadar no rio da parede da casa do tio Joca, muito engraçado!, e aí a Bifi saiu da água e viu uma onça e se arrepiou todinha de medo. Muito engraçado! E a Quina achou que era era é nada e foi chamar a Bifi para ir embora e, quando a Quina viu a onça, ela pulou no colo da Bifi, muito engraçado! Aí as duas foram saindo bem de mansinho da casa do tio Joca e num 'e que assustaram com ele, cara de bravo. E o susto delas foi tanto, que até o tio Joca sorriu. Eu mesma nunca tinha visto os dentes dele, muito engraçado!
Aí, o senhor sabe?! Que tinha um ômi morando numa rede bem alta lá, bem lá, no canto das cabaceiras? E nunca ninguém viu o ômi. Mas lá tem tanta cabaça quebrada, que estão dizendo que o ômi come é as cuias todas. Eu que nem sabia, fiquei é só de espanto! Num é que a Bifi, sem medo nenhum, quando viu a rede fez só é achar que era para ela. Que a rede estava lá era para ela subir e descansar lá em cima?! Nem sei como ela conseguiu subir lá, tão rápido que foi. Sei que aí, muito engraçado, a Quina ficou é com inveja, pegou uma escada, porque mais sabida ela é, e pensa mais direito que a Bifi, encostou na rede e subiu ligeirinho, a Bifi nem entendendo nada. Aí só deu foram as duas balançando na rede.
Mas, como sempre elas brigam, num deu espaço prás duas e foi o que foi, o furdúncio. A gente, de baixo, só via que era o pé da Bifi, todo furado, aparecer prá fora da rede. Via, que era muito engraçado, a cara da Quina, com aquela boca enorme e cara de espanto, sair para fora da rede e entrar de novo. E era então a Bifi saindo da rede com várias caras, com bigode, com barba barbosa, de cabelo novo, que era muito engraçado. Muito engraçado! Aí que prá descer da rede a Quina foi ligeirinha, no ombro dum ômi graúdo que tava ali. E a Bifi, vendo a Quina indo embora, desceu da rede toda macaca, quase num pulo só, muito engraçado!
Agora, espia o senhor, num é que a Bifi se transformou numa árvore e começou a se esconder da Quina, que pareceu que tava é brava com ela?! Mas a Quina viu a árvore e ficou é encantada que bonita que era ela, cheia de galhos e folhas, ramagem que a Bifi pegou do chão. E num é que a árvore andava e seguia a Quina? E ainda lerdou prá Quina se perceber disto, muito engraçado!, e sempre a Quina virava prá trás e a árvore, a Bifi, estava mais perto. A Quina então fazia outro elogio prá árvore, mas começou a achar alguma coisa esquisita, modo de dizer, que a árvore tava era andando. A Quina fez aquela cara abobada dela, mas continuou indo mais adiante no trapiche. Aí, parece que, no nada, ela percebeu que a árvore era a Bifi! E aí, danada, esperteza só, pediu para a árvore ficar de costas. Dito e feito: pegou que a árvore era que era a Bifi. Muito engraçado! Dava vontade a gente mesma de dar uns tapas na Bifi e sair correndo atrás dela. As duas então saíram correndo e a Quina ralhando com a Bifi e nós tudo atrás, os miudinhos. Aí, elas sumiram, foram num sei prá onde lá dentro da casa da tia Neusa. E nós ficamos é só espiando a hora que as paiáças iam aparecer de novo.
Embora lá, vamos ver se as paiáças já apareceram. Eu nunca sei quando é a hora delas, que elas não tem hora de aparecer, pode ser de dia, de tarde ou de noite, a gente pode dar de cara com elas. Mas deve de ser agora não, que, espia, o sol está muito forte, o senhor nem queira sair de casa, que mãezinha diz que faz mal. Por isso os trapiches estão assim vazios, não tem ninguém andando. Mas vamos esperar, que logo elas vêm.
As crianças todas aqui do Arraiol fazem que só falam das paiáças estes dias. As brincadeiras lá da escola são é de imitar elas: tem a brincadeira da pulga que se equilibra no barbante, tem a pulga que pula, erra o alvo e cai na cabeça de alguém. E tem as mágicas da Quina, que tenta fazer sumir o papel, mas num consegue, e no final o papel se transforma num cordão todo colorido que sai da boca dela, sei não como ela faz isto! Isto não dá de imitar, não senhor! Aí tem tanta brincadeira, que não pára mais.
Mamãe diz que as paiácas são gente assim como nós, que usam pintura na cara e trocam de roupa. Eu acho que sei quem elas são, que dormem na casa da tia Neusa. E eu gosto é bastante delas, que ficando brincam com a gente. Tem um ômi que veio com elas, bem barboso, que é muito engraçado, ele estica a boca, um canto prá cima, outro prá baixo, que torce toda a boca. Parece que o ômi tem um fio na mão. Ele também tem uma máquina de tirar fotos que a gente aperta o botão e vê a foto num quadradinho atrás da máquina. Ele é bem legal e deixa a gente tirando tudo as fotos.
O senhor, mesmo, é que veio com elas, também, não é verdade?! O senhor também dorme lá na casa da tia Neusa! Embora lá, vamu brincar de pirueta, só uma, uminha, vai, vai!
Ufa! Eu não queria que vocês fossem embora, não! Vocês são tão legais! Embora, vem morar aqui com a gente, que o tio Jorge constrói uma casa rapidinho para vocês morarem. Vocês não podem?! Ah, que pena, dá um jeito, vai, que mamãe e o papai vão ficar felizes. Eles até pararam de pensar muito no Maninho estes dias. E papai gostou de vocês, de mostrar o mato e contar as histórias e a mamãe, bem faz para ela, gostou de passear com as paiáças e de mostrar o quarto do Maninho, que ela, a mamãe, vai até pintar as unhas, com desenho de florzinhas, da paiáça de cabelo curtinho.
Mas, se vocês não podem, faz bem, vale. Que foi tão bom! Mas vocês vêm de novo, não?! Para o ano, vai! Que eu, eu mesma, vou é fazer de esperar todos os dias as paiáças vindo chegando na beira da minha janela.

domingo, 19 de julho de 2009

Foto: Marina Quinan

Andanças (Breve interrupção na história de João Quinlhão)

Quero dizer, sim, que foram estas andanças. De cerro mato, em torto de rio. Os encontros. Cada um é um, por certo, dizia minha comadre, que ainda diz, nos revelos, que as coisas são mais belas do que aparentam poder ser. Foi, que foi, nos meus sós. Cresceu tanto de modo terreno baldio antes de bosquear. Diz -se que a terra no onde a gente pisa tem forma de nos falar, basta ter ouvido. E que o rio do onde se bebe a água, traz a gente sempre de volta para o ele. Mas quando, que força desta monta eu mesmo senti, nos meus dentro e fora. Onde quando foi que, deitado, pensando em forma de desistir, senti, que prova é quem sabe olhar o fundo de um homem, a terra me abraçar e dizer "fique, meu filho, que aqui é lugar seu".
Entrementes, que bulia dizer algo de mim, forma era eu sabia não. Peguei do que conhecia, tendo passado por um demais dum vazio de ser. Qual o que um homem, que, dotado de sabedoria, decide é largar de tudo o que sabe para se preencher no novo. E foi assim. Só que o intento é danado, dói que ferra queimando, assusta e apavora. Qual um curuminzinho que ainda não sabe nadar e gente joga ele na água. Ai, que demora dum tanto em saber-se capaz! Passa por sufoco e alívio, no bater forte do coração, no pensar que vai morrer, no desespero, qual a beira dum cume bem alto, sem escora de apanhar e grito de socorrer.
Voltei a mim, modo como um homem, em broca de fome, vasculha terreno atrás de fruta e caça. Era deste tanto o caminho: vim de saída dum lugar belicoso, fumaçento, lotado de gente raivosa e dotada duma tristeza calada, crivada é mesmo lá nos recônditos da morada da alma. Em este lugar eu fazia morada, como que já não sabia mais quem morava dentro de quem, era eu nele ou ele em mim, visto que o modo de ser de um podia ser o modo de ser do outro. Em vista que, posso eu ter sido muitas vezes, eu mesmo, belicoso, fumaçento, lotado de gente. O me sentir neste lugar, eu mesmo conto: era que, de um modo meio nublado, meu coração doía era muito. Como o sumo de um homem se sentindo sozinho no meio de tanta gente!
Digo isto, sim, que o serviço de alguém nesta vida é achar o seu-caminho. Que quando as estradas estão prontas, de quem elas são? Os caminhos no onde eu morava, já eram picados. Quem tinha picado, eu não sabia não, e para onde ele queria ir, eu também não sabia. E, movido duma força, qual correnteza de rio, eu me movia nestas estradas, que não eram minhas e que me levavam para dentro delas, e eu parecia era estar sendo carregado e sem jeito de pôr os pés no chão.
Mas que, um dia, a vida tem seus modos, vi o olhar dum velho. Era de modo que ele tinha a vida nas mãos, que o mundo seu era dum tanto certo e nítido e apropriado, que até dono do tempo ele parecia que era. Os meus andares estavam por conta de construir estradas iguais a aquelas todas que eu via. Mas o olhar daquele velho me mostrou que ele tinha mesmo, de forma própria sua, criado um sereno jeito de se viver, forte como um terreno arado, semeado de tudo quanto é árvore e que resiste aos rasgos de água e seca que o céu faz o chão provar.
Sucede que eu meio que segui aquele velho. Segui sem tê-lo seguido, compreende? Nos meus pensamentos, cá de dentro. Primeiro segui foi era uma mulher, que fazia uma arte de um tal negócio de palhaça. Ai, que foi que vi dentro do olhar dela e da outra que também caminhava junta, que somando eram duas, e que também olhava igual, o mesmo jeito de caber no mundo. Mesmo jeito lá, daquele velho. E que as duas estavam eram caminhando dum jeito contrário do para onde eu ia. E elas me acenaram dizendo: vem com a gente! Fiz, que fui. Eu estava atrás do velho, como-que, era só dizer do sim.
Mas que, largar do tudo? Gente de próximo me diziam, como se fosse o acesso do insano, o dizer da bobéia, o azar do sem-juízo. Que eram olhares do fora, eu bem sabia, como do meu dentro não compreendiam. Quem era que sabia do velho? E da mulher-palhaça? E da minha dor de não caber naqueles caminhos? E quem sabia que os caminhos davam no sem-sentido? Sei que bem sabiam alguns com os quais eu convivia e que estavam eram contidos na brecha do tempo e desarrazoados do convívio, marcados por não serem compreendidos. Estes, digo-eu, mereciam vir comigo. Mas que, pelo não, sei que deixei um pouco de mim com eles.
Era bem que tinha começado, ou ainda não? Numa beira de estrada, esperamos um tal de um índio que nos levaria para o alto do rio, bem dentro da floresta. Esperamos cansados, três dias, em rede atada em cima de bosteiro, com os porcos cheirando e farejando rastro de gente e comida. Mas ficou do intento o sentido do tempo espichado, como o quê deveria ser de lugar como aquele, o velho me disse. A pequena aldeia, de tanta forma era grande, de se perder, com os jeitos deles de comerem, dormirem, falarem e amarem. Coisa de monta. Estas, que dariam livro. Em matéria de medicina, tinham o pajé e o sagrado de plantas do mato. Falavam com os mortos e limpavam o espírito das doenças, nas pajelanças. Tinha a uasca e o cambô. Tinha o canto que invadia o sono.
Foram mais muitas andanças. De entre quais, dos tantos feitos, se sabe ter registro, mas que mesmo eu deixo para quem quiser saber, procurar. O que de mim se faz saber, o velho me diz, é do crescido. Mesmo que o crescido do olhar. Mas que, sou o mesmo de ontem ou não. Quem me diz é quem me vê, não é como se diz? Sei que, de agora e do onde estou o mundo se passa no como eu vejo agora. Do passado, lembro pouco, vislumbros de desgosto. Mas que, no presente, não se tem permanências?
Se sabem, são poucos, do ofício que levo. Sou médico. Mas que, fui acrescido. Dum tanto de estas experiências com as mulheres-palhaça. Mas que, me transformei? Não sei mais, visto que, como eu disse, sei do que vejo agora. Sei dum tanto que me é pouco no sentido de compreender, mas tenho vontade de dizer. Mas que, digo: sinto é falta de ter não ter compromisso quando falo com alguém. Pois que, sempre preciso fazer alguma coisa, para motivo de acalentar. De tanto compromisso, me falta por tantas vezes é do natural, do vontadear. Posso eu não querer transcorrer prosa com fulano? Sei que, posso gostar pouco, mas digo menos ainda. Os modelos. De estradas já percorridas. Vou menos para o profundo. A prosa segue rasa, e vou tentando achar motivo de mergulho.
Não é que a gente, por vezes, perde a alma? Como se diz. Tem uns que vendem, pro dito. Quero também dizer mais coisa, a tempo. Tenho duas almas, como também soube de outro homem, e de outro e de outro -nem sei mais se todo mundo é assim! Mas, falo por mim. Uma delas, sei não, mais parece que vem como para proteger a outra. E esta alma é a que me veste para este negócio de médico. E a vila onde eu moro, conversa e lida é com esta alma. Ela é tal que tem jeito próprio de amar e desamar, de jeito de falar, dum modo assim meio letrado, sucinto e objetivo. Dum jeito meio sem-sentimento, que olha para as coisas mais de longe, que quer se afetar pouco pelas coisas. Dum jeito que fica assim meio de lado para as pessoas, pois sabe que, se deixar, "o pessoal monta em cima", como disse o caboclo.
Agora, tem a outra alma. Que dela digo pouco, pois que é ela quem vos fala agora. Sabe quem então me ouve. Ela mesma- essa alma-, que ouve o velho. Como que, não foi que vim até aqui? Casei com a mulher-palhaça. E vou ter uma filha com ela. Essa mesma alma que chora bem por dentro, abafada pela outra, em mais-de momentos. Chora às vezes a noite, escoando do travesseiro. Ela ri também, nuns tantos. E foi ela que acresceu, nestas andanças. Ela que-palhaça. O velho fala é com ela.
Essa alma faz modo de eu ficar aqui, agora, no sossego do mato, no encalço dos homens daqui, querendo ainda mais aprender. Como se faz a bajara, e se pesca de tarrafo. Como se trata desmentidura ou rasgadura. E como descer o caminho do rio.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Vila de Curiá

Tem gente que sabe até do demais. Olha já, que vento batendo em popa de bajara é do suspiro da mãe do rio. Um garoto um dia espiava atento o silêncio do rio, seu pai pescando. A água refletia aquele sol fraco de fim de tarde, o parto da noite, partida do dia. A água fazia era balançar profundo o casquinho sozinho na imensidão do rio. E o menino olhava que só ele, como que o tudo do mundo fosse só aquelas imagens se formando nas ondinhas formadas do balanço do barco. O menino então sorriu, passou o que foi pela sua cabeça não se sabe não, sorriu e se levantou. Pulou na água tentando foi abraçar coisa que só ele via. O pai desesperado pulou na água atrás do filho. E ele revistou, que revistou por várias vezes, por baixo do barco, em linha mais funda do rio, em um tanto mais longe da canoa, em tudo quanto era fundura que seu peito agüentava, mas não encontrou o menino. Já cansado, triste, chorando que aumentava a água do rio, subiu de volta no barco e fez foi gritar bem alto: filho....Passou foi o instante de uma vida.
Que sucedeu foi um estrondo de um suspiro vindo da água bem perto do bote. E o pai, que tinha ainda esperança, foi logo ver o que era e foi então que viu um boto, grande dos nunca vistos, e seu filho nas costas dele...O menino dava de ver ainda se mexia, mas tinha sinais de sofrido. Foi que o pai pulou de novo no rio e acercou de seu filho, pondo o menino de volta pro barco. O menino respirava fraco, mas com muita massagem o pai fez que ele fosse voltando aos poucos. O menino abriu os olhos e o que se viu foi fato nunca antes relatado: o menino estava com a menina dos olhos da mesma cor do pôr do sol, duma beleza sem igual, que o pai ficou encantado e abraçou mais que mais o filho e disse bem alto, para todo mundo ouvir: a mãe do rio batizou o meu filho!!! E o menino sorriu e os peixes pularam para fora da água e o boto ficou zuando feliz, espirrando água para todos os céus.
O velho Romualdo contava esta história a cinco curuminzinhos quando da chegada dos quatro aventureiros na vila de Curiá. Ainda que deu tempo, pois o velho não parou de contar a história, de João Quinlhão sentar foi ao lado de um negrinho magricela, que estava com tanta atenção na história, que não percebeu as formigas ferrando seus pés, nem os carapanãs, que nessa hora eram muitos, sugando seu sangue mirrado.