sexta-feira, 21 de novembro de 2008

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A mulher tem encantos, muitos, que não cessam. Pois que, se sabendo mulher, já se sabe quais eles são. Como que é mesma a força de uma árvore antiga ou de todos os ciclos do mundo, de tudo que nasce e cresce e morre. Assim, sem forma de pergunta, a mulher espera. E essa espera, dolorida em si mesma, mas resignada, calma, cruel, deleita e ensandece os homens, num tormento de afoitos. E a tempestade do amor se forma, num embrenho de sentimentos de salvamento e perdição, num entra e sai de sucessos e fracassos, que, por motivo de mais sofrer, não têm peso nem medida. E que, numa maravilha, determina o dever de nossa existência de tomarmos juízo de nós mesmos, modo de dizer, que temos que ser é mesmo donos do nosso pensar, onde, caso o contrário, fazemos de nós um amontoado de outras gentes, sem forma e sem substância. E é essa forma amorfa que num vence no terreno do amor.
Sabida já era Graça de tudo isso, sem como explicar. Que o desejo em si só não basta para que duas almas se juntem. O fatal do amor é isso, que se move por notas dissonantes, pesadas de silêncio e fincadas num terreno de coisas indizíveis. O próprio do amor nem tem nome, forma de desdizer. Se se diz do amor, se diz, sim, da sua aparência. Mas sua essência, ela-mesma, não se diz em palavras. E Graça, pode se ver o contrário, estava era na busca deste amor que de primeiro se volta para si mesmo. Que se busca no acender das próprias luzes, que iluminam o ser de encantos. Então não se pode dizer que Graça, em sendo vistosa, em se aparecendo em forma de arte, de deslumbramento, estava era se afastando do amor. Ela estava era esperando, mesmo sem saber. Esperando um par que desdissesse toda a vida e a fizesse amar assim de forma fluida e natural, como era mesma a sua alma.
Não que não houvessem tido pretendentes. Muitos homens vieram, que se apresentaram. E força de encanto tiveram, que fizeram Graça esmoecer, mas que pouco ficavam, pelo embaraço do tumulto. Pois, em desejo de mais segurança, estes homens cedo ou tarde tentavam apagar a sua luz, em forma de ciúme, ou de emburramento. Emburramento, por certo definir, é como antipatia criada por coisa que de primeira podia agradar. Como o Cesaltino, filho do dono do mercado, que era o porta-bandeira da festa do divino e que, depois que tentou namorar a Graça, parou de gostar da festa e não ia mais nos ensaios e nas apresentações. E a Graça tinha gosto pelo Cesaltino, que escrevia poesias e dançava que era bonito de se ver. Aí Cesaltino emburrou e parou de escrever e de dançar e Graça se desenamorou dele, fácil como o que de certo tinha que acontecer.

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