sábado, 22 de novembro de 2008

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Sucede a fase do recolhido, do frustrante, do amargoso. Em que se tem por si que coisa maior pudesse ter sido feita. Que o amor teria acontecido, caso o investido fosse maior. De começo, a Graça pouco se incomodava com estes desencontros. Desdenhava, como foi dito. Em que o peso da covardia era maior, a covardia dos pretendentes que ciumavam ou emburravam. Mas com o tempo vindo, ela principiou um sentimento de desilusão que a afastou por um breve período das suas artes. Por breves, momentos, ela se recolheu e pensou em desistir de sua obstinação pelo próprio fazer, que era de gosto seu e que a supria nas necessidades da alma. Refletiu, desgostosa, a possibilidade de uma vida solitária.
Os pensamentos, com o coração escangalhado. Sorte nossa é que o tempo desilude e desembaraça, mais ainda em assuntos dos quereres. Que o tempo desembaça as nossas querências, nos trazendo de volta o fundo de nós mesmos. Os quereres voltam, como coisa que é antiga. E Graça sempre retornou aos seus fazeres festivos, afastado o resguardo da amargura. E parece que voltava era mais definida, mais determinada, mais resolvida. Seu brilho ficava ainda maior, formato de estrela, de mais pontas. Aí que ela reestreiava, nas rodas de batuque. Aí que ela juntava as amigas todas e ficava que era ela inteira em forma de história. Contava tudo o que tinha se passado, mais cuidando do privativo dos namorados. Aí que o povo parava era para admirar ainda mais sua formosura.
Os homens, todos, iam para o esquecido. Graça passava longe de querer guardar resquícios do passado, ainda mais quando se trata do amor, que o melhor que se faz mesmo é esquecê-lo. Esquecer o amor traz é espaço para que ele aconteça de novo, muitas vezes ainda mais intenso. Nem que seja em forma primeira de maiores vontades. Graça adiantava nestes momentos a sua precisão de estar com suas amigas. E espessurava as amizades todas, modo de aprofundar. Maira Arantes, amiga de muitos anos, voltava a ser sua segunda alma. Entrementes, ficavam só que eram as duas, dia e noite, em formato de uma só. Forma de roseira ainda mais florida. Forma de espelho de multiplicar beleza, de parar o tempo do mundo e nutrir com mais encanto a vida das gentes.

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