terça-feira, 25 de novembro de 2008

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O coração da mulher tem espaço para muita coisa sim. Ainda mais um coração sofrido. Que é triste, mesmo, o sentir do vazio da falta de alguém. As formas várias, de companhia. Que a força inteira, de fêmea nascida, muitos poderes tem. No recolhido do silêncio fundo do coração de uma mulher, o ser-homem não tem acesso. Que em nestes recantos, só a forma sensível da mulher sabe caminhar. E nos abrigos mais intangíveis do coração de Graça, Maira pairava leve, segura como a solidão de uma andorinha venteando. Segredo das duas, almas se comunhando e se completando. Uma definia e sublinhava, amplificando, a beleza da outra. Qual um simples feito de pentear. Os cabelos de uma e outra, o tempo alongado, a queda decidida e corajosa do pente, deslizando interminavelmente por dentro dos feixes negros e perfumados da Graça. As duas se entreolhavam no espelho. Se diziam bonitas como são. Se diziam que queriam ter para si aquela parte uma da outra. Maira queria o nariz da Graça e esta queria ter os peitos menores e bem formados como os da outra. Prazeres, vai e vem de impulsos. Que as mulheres indecifram, apenas vivem, saboreiam.
Maira Arantes, descendente direta, de mãe e pai, de sangue indígena. Sua pele enegrecida, espelho da terra, contrastava com a de Graça. De forma tal que a mistura era a formação própria da gente deste país. Da infância, amigas. Como o ser sendo, em brincantes. Em busca de nada que a coisa vem. Pois que foram assim se encontrando, no prazer sutil e vivaz das brincadeiras da meninice. Graça desde o sempre se embrenhava na arte de estilizar bonecas, com vestidos e adereços vários. E Maira desenhava, bem dizer. Maira desenhava e Graça costurava. As duas cantando, capazes de fazer o tudo. O tempo era delas, nos motivos. Graça e Maira dançantes, derramando os estados de completude, de desde pequenas. A sorte as cruzou em caminhos, para certo trilharem. É na descoberta destes prazeres mínimos-máximos do desde pequeno, que um se forma como identidade de si. E aí não tem nada que faça o ser se apartar dele mesmo. Principalmente quando a força é dupla. Duas pessoas se sabendo inteiras, se fazem de muita valia.
Mas Maira era algo assim mais desajeitada, momentos parecidos com confusão. Pois o mundo dela sempre foi o de muito pensar, abismos. Sabe-se que o muito pensar exagera o ato. A gente pensa muito, vezes, para não-agir, forma de escapar do medo, da falta de coragem para tomar posição. E Maira tinha o seu recanto no território dos pensamentos. Menos quando se juntava com Graça, talvez aí o motivo do se encontrar das duas. Enquanto Maira passava minutos em dúvida quanto ao desenho do vestido das bonecas, Graça já vinha com a idéia pronta. Dizia que forma, que cores deveriam ter. E Maira enfim se inspirava e trazia ao papel a idéia mesma da cabeça da Graça, modo tal que a mão de uma parecia era comandada pela cabeça da outra.

Um comentário:

Jon disse...

Frê querido
NOSSA, fico muito orgulhosa de ver como você escreve bonito! Boniteza que dá gosto, enche os olhos e o coração de alegria!
Continue, querido! Abração. Cristina (Mã).