terça-feira, 9 de dezembro de 2008

João-si. Outras paragens.

Variado nestes pensamentos, João tinha mesmo era que atentar aos práticos assuntos da sua viagem. Como agora, que, estando ele de rumo para o leste, para o lado mais para perto do oceano, ele necessitava embarcar no casquinho-bajara, de compadre seu Jordão. E o barquinho estava para sair, que João atentou Zé Canela, e foram os dois que foram, de bagagem muita, se equilibrando no balanço bagunçado da canoa. Partiram que era por volta das seis da tarde, boca da noite. E foram bordeando a orla, bonita que só ela, cheia de barracas de vendedores de peixe, farinha, frutas e garrafadas. No alto, pairava fixa a escultura de um São João da Boa Vista, que avistava mesmo o rio todo se arrastando lento para fora do continente.
Eles os três, João, Zé e Jordão. Desciam o rio rumo remando. Em direção a Vila de Curiá, povoado de origem negra, que seria o primeiro ponto deles de parada. Em caminho de rio casado com mar, João sabia que a travessia é conturbada. O encontro da vazante do rio descendo em direção ao mar, de maré própria, traz é um conflito de águas capaz de fazer ondas altas, que no centro do rio espanta embarcações pequenas como a que nela eles estavam. Foram então eles navegando mais para próximo da beira, onde a maré é mais calma e o vento perturba menos. Mas, mesmo assim, tinha o balanço cruel da maresia, poderoso de fazer muita gente provocar. Mesmo um caboclo forte como João dava era de pedir proteção para Nossa Senhora, sentido de proteger o barco de virar. Que o barquinho ameaçava mesmo de virar, no mais quando a água pulava para dentro do casco e fazia mais peso. O balanço arriscava de que um pouco da água que entrava acrescer ao pouco que já estava lá dentro e, num átimo, a canoa ir para o fundo. Num piscar de olhos. Era então que eles os três revezavam de tirar a pouca mesma água que entrava, com uma cabaça marrom, que de salobra toda preta por dentro estava. Mas pense o difícil da situação. O barquinho subindo e descendo na maresia, o embrulho no estômago, o medo da canoa virar, o escuro da beira do rio em horas de noite alta, o sono e o cansaço já apontando, o desconforto de ficar estas horas sentado quase na mesma posição. O furdúncio. João cansava. E mais ele cansado, que pensar em Graça dava-lhe forças para seguir. Ele fantasiava que Graça poderia estar esperando no cais quando ele chegasse. Que Graça ia recebê-lo com um grande abraço e levá-lo para casa e servir a janta, depois dar-lhe um banho e os dois fazerem amor, se acalmando da espera e do sacrifício.
A noite estava sendo longa. Desta vez a maresia tinha aglutinado mais força. Força do inverno começando. Quando a lua se mostra mais seis meses do outro lado do céu. Quando os navegantes vigiam com mais atenção, época de pororocas. Os três viajantes decidiram então buscar abrigo num igarapé que começou a se mostrar na curva do rio. Para lá passarem a noite. Ainda podiam aproveitar a maré alta e saírem cedo, no começo da vazante. Com o barco parado João buscou onde esticar o corpo para o vir do sono. Cada um deles se ajeitou num dos três bancos dispostos paralelamente ao longo da canoa. Deitado, João observou o completo do céu. De estrelas. A lua, nova, para ele. Se sentiu forte, homem. Que aquele céu ele sabia de sua formosura e, dela sabedor, fazia do céu meio propriedade sua, como um lugar de conforto que a ele poderia recorrer toda vez que quisesse se sentir forte, homem-si. Pois o céu o fazia refletir sobre o caminho de sua vida. O ajudava a decidir os próximos passos.

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