quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

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João, nas distâncias, estava era esvoaçado da mente, que a noite de sonhos fora intensa. Que são os sonhos, se não intensos eventos, reais, que nos resignificam os fatos vividos e nos direcionam para o modo de pensar de nós mesmos? De atenção se faz, para o sonhador, quando se se lembra do sonhado. Mas sendo isso também uma forma de arte, precisa de praticação, sabe bem aquele que aos sonhos tem escuta. Ainda tem também fases, nas quais se lembra mais ou menos. Melhor, para sonhar, são os momentos de dor. Aqueles momentos que o desejado não se alcança, tomando este forma de muitas imagens, as mais distantes possível do objeto, mesmo, que se está buscando. O entendedor de sonhos sabe que, em momentos de perdição, o onírico é guia maior.
Que dizer então, próprio mesmo do sonhado, do fato de se encontrar acordado, se sabendo onde se dormiu, num meio de edifícios de concreto fincados que eram eles as árvores da floresta? E então, num desespero amalucado, tentar derrubar um por um de todos eles, usando apenas a força do terçado? O arrazoado de João assentava, no embronho ainda do sonho, que ele devia era de proteger a sua mata, evitar dano a tudo aquilo que ele defendia como seu. E ele se tomava de uma força, sentida mesmo, de qual bicho como onça, e macaco, tendo até a destreza da cotia e a rapidez do veado. Numa gana de sobrevivência, o caboclo vociferava ódio para o absurdo do mundo da cidade que era rijo, sólido, encapado de cimento, mas que não tinha alma. E reconhecendo, como percebem os índios, ele descortinava o tranqüilo da civilização. Incrustava, bichumano projetando todos os urros e berros e guinchos que dele saiam, a selva, contaminada, de lembranças do que de primeiro ela sempre foi, o onde mora o natural do viver.
De defender a floresta, por motivos do sem explicação no mundo destes do sono, João foi defender a si mesmo. Do frio fio da lâmina de uma gilete que estava na mão de um homem tresloucado, que queria cortar a todos que deles se aproximassem. E tentou cortar João, que fez manobra de astúcia e rendeu o homem por trás, torcendo o braço do sujeito e fazendo que ele jogasse a gilete no chão. Tinha em João, e isso foi motivo de reflexão, um sentimento de perdão e compreensão para com o desatinado. Como se sua atitude incompreensível, vista pelos outros, gerava era forma de cuidado e preocupação no Quinlhão, que os outros também acabava protegendo. Até o homem de ele próprio se cortar.
Eram essas as lembranças que deixavam João na rede na raiz do dia. Assolado por uma saudade confusa que ele sentia pela Graça, o Quinlhão estava era remexendo as entranhas da sua alma, vasculhando e examinando cada parte emergente ou adormecida que ele começou a reconhecer do seu próprio de ser. Levantou então uma dúvida: estaria ele realmente apaixonado pela Graça ou ele estava era necessitado de se espelhar nela, sentido de busca de uma completude, de um bastar-se em si mesmo. Mas, ainda, um tenebroso sentimento de apreensão, angustioso, pela forma possível que Graça poderia vir a ter de até não reconhecê-lo quando eles se encontrassem novamente, fazia as partes de oportuná-lo, impiedosamente. E essa angústia, travestida mesma na máquina dos sonhos, acelerava e freiava João no seu intento de descobrir-se homem. Por vezes ele é se libertava definindo-se capaz de encontrar novos amores e novos fascínios para a sua vida e por vezes ele sentia uma verdadeira quase fé de que a Graça era a sua parceira ideal.
Mas em assuntos delicados destes do amor, será que o tempo é nosso aliado ou nosso perseguidor? O tempo este passado da sua saída, sua mesma, do vilarejo, para ir de encontro a si próprio no movimento de carnalidade, de bacanismo, de elorgias, da cidade grande, não seria capaz de fazer o mínimo do possível do amor entre João e Graça, naqueles tempos, desaparecer? Ou seria este tempo capaz de despertar uma desfragilidade no Quinlhão, ela mesma poderosa de acender mais intenso o interesse da Graça pelo viajante? Ou, nesse ínterim, Graça poderia estar conhecendo outro homem, já mais fortalecido e completo que ele-João?

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