segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Anice, nas memórias

Imaginou então Graça deitada ao seu lado e os dois esticados numa esteira de palha, ao relento, numa das praias de rio que ainda estão formadas no final do verão. Mas neste momento a presença de Graça foi de um modo perturbador, que o fez se incomodar. Como se o sentido de sua união com Graça tivesse se perdido e ele estivesse querendo se apropriar de um sentimento já passado, quedado de vitalidade. Pois que, de uma certa forma, a Graça era uma construção do bem-querer de João. Eles nem bem se conheciam. E o maior do amor, que se constrói na vivência, de certo faltava para os dois, ainda viventes nos terrenos do idealizado.
João tinha se enamorado, há dois anos, com Anice. Uma paixão pouco correspondida por João, modo de dizer, que Anice era mais afeita a João que ele a ela. Mas Anice deixava o Quinlhão muito bem regado de carinhos e cuidados. Muito bem saciado no forte seu do ser-homem. Que Anice era muito bela e dengosa e frágil, menina criada com modos de princesa, da família para o casamento.
O sentimento de permanência, constância, quietude, é necessário para o amor? Ou o amor precisa se nutrir do desafio para permanecer vivo? Assim João alternava o seu pensamento entre Anice e Graça. Ora se amansava no colo de uma, ora se desafiava desejando a outra. O tempo desenhou aos poucos um afeto calmo e profundo por Anice, mas João era de alma mais inquieta, se prazia de buscar o novo, comia dos pratos mais temperados, se deleitava respirando o ar da madrugada, quando Anice gostava era de estar dormindo.
E este estado de necessária liberdade fazia com que João fosse mais ainda desejado por Anice, que desatinava de ciúmes. Aos poucos, o ciúme foi predominando entre os dois. E o ciúme é afeto perigoso, dado que destempera se passa um pouco da medida. O ciúme passa do perfume para o veneno no mínimo descuido de sobremedida. Pois que ele passa a aprisionar. E João, em se sentindo preso, fazia era fugir. Fugir mesmo, sem sobrar nem explicação. Foi então isto que se sucedeu entre ele e Anice. Num dia seguinte, o vento tinha levado o sequer-ser de João.
Memórias. Que se pode aprender a tê-las como companheiras. Para afastar a solidão e trazer um gosto pelo próprio da vida, da experiência. Modo de dizer, que as experiências recordadas se ressignificam e ficam vivas novamente, porém dotadas de novos sentidos, de novas conclusões, de novos sentimentos. Por isso mesmo, é que se pode rir do passado, não se diz? E a noite fazia João navegar neste mar de lembranças, que o que dele desentendiam e elucidavam, mais como o saber do contraditório. Se se sabe ou conclui num instante, o certo do saber é se desconstruir no depois, o antes. Mais a canoa balançava, que espantava o sono. E João então mais ainda se encantou pelas estrelas, desenhando possíveis rumos para a sua vida. Ele agora queria mais é seguir viagem. Ele queria mais é conhecer logo a cidade grande. Quantas novas mulheres ele não iria conhecer, quantas coisas vividas para poder trazê-lo para longe da Graça e enfeitar o seu caminho de novas boas lembranças.

Um comentário:

Márcia Corrêa disse...

"O sentimento de permanência, constância, quietude, é necessário para o amor? Ou o amor precisa se nutrir do desafio para permanecer vivo?"

??? tsc tsc... ???... tsc tsc...

Sem solução...