quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Terra de Encantarias

Jordão ribombou, cortando o silêncio dos três ensimesmos. "Que aqui é terra de encantarias, senhores. R´rrum. Quem vê, vê. Quem num vê, num vê". "Tem lugar daqui que nada se pode tirar, não!". "Teve alguém que o barco não saía, arriou na beira. O barqueiro fez é perguntar, quem tinha tirado alguma coisa da terra. Caso foi que um homem tinha tirado é apenas uma pedra, uma pedrinha titica". "O barqueiro ordenou o homem para tornar a pedra de volta ao rio. E assim que a pedra tava entregue, o barco desarriou e seguiu viagem.". Zé Canela, que era homem de pouca superstição, mais afeito ao que ele de fato vê e enxerga, sobredisse: "Homem, corta de dizer bobéia. Que já que um barco vai ficar preso é por causa de uma pedra na mão dum mano? Olha já, danação! Que eu perco é tempo de ouvir estas estórias, pô!". João calou-se, fixando o olhar no Jordão. Queria mesmo é ouvir mais casos daquele compadre. Pois que assuntos destes do invisível lhe apraziam muito. Coisas do avesso, por trás do tudo.
"Conta mais, mano!". Arriscou João. E Jordão, estimulado, continuou. "Senhor, caso foi que um grupo de pescadores destes, daí mesmo dessa orla, tinham chegado duma pescaria, um deles era até pai do marido de irmã minha, desbocado que só ele, destes de dizer tudo o que pensa, e que numa conversa num tem muita moral, não. Aí, espia Zé Canela, e num duvida mais das coisas não! Este pescador desbocado chegou, encheu a barriga, para no dia seguinte seguir viagem com uma tapuia de mais ou menos dez quilos de peixe. Mas o caso é que era dia de São Benedito e a casa tava é toda ornada de bandeiras coloridas e velas acesas e um altar erguido para o santo. Sucede que o pescador veio com uma ignorânça, falando era um palavrão bem feio. Disse ele que ele queira era peidar na cara do santo.
Então, senhores, escuta só! Os pescadores, que eram quatro, deviam de sair com a pesca toda no dia seguinte. Eles saíram com o céu todo limpo, sinal de viagem calma. Num é que no meio do caminho bateu uma trovoada e uma rajada de vento que virou a canoa dos quatro? R´rrum, tudo virou, a pesca toda foi pro fundo e eles ainda tiveram que tirar toda a roupa para poder nadar, pois a roupa pesa muito molhada na água. Eles só se salvaram pois passou um outro barco, por sorte, e pode salvar os quatro. Mas eles perderam quase é tudo, só não perderam a vida, e ficaram todos nuzinhos mesmo. Foi é lição para não falar mal de santo, que, se se fala, vem é coisa muito ruim!." Zé Canela olhou meio desconfiado, mas não disse mais nada. João aprovou num gesto de cabeça.
A noite se esvaziava no nascer da manhã. A maré já dava sinais de vazante, amaciada pela lua em retirada. Que o barco passou a pedir o rio, seguir viagem. Eles, os quatro, se espicharam em pé, se alternando, para acerto do balanço da canoa. Jordão anunciou a partida. "Vamos deiscer o rio, senhores, que temos parada ainda para rancho na terra dos negros de Curiá. Quem sabe não caçaram um veado, a gente festeia. Embora, que a maré tá boa!". Partiram, com corrente facilitando o remar dos quatro, que eram todos eles remando.
A luz da manhã divisava o contorno das matas altas da beira. Os açaizeiros denteavam o contorno daquela parede escura no contraste com o céu azul-violeta por detrás. As garças levantavam vôo assustadas com o menor barulho estranho ao tranqüilo de estarem lá em silêncio, espiando o movimento dos cardumes de peixes, que também acordavam do descanso noturno. Um casal de araras cruzou o céu rrerreando em coro.

Um comentário:

Márcia Corrêa disse...

E é tanto encanto, que num espanto a gente se vê no lugar, qualquer que seja, beira de rio benfazeja. Melhor lugar do mundo, desde que seja esse mundo de encantarias, de caboclos contadores de estórias, pedras que não podem sair do lugar.