domingo, 16 de agosto de 2009

Nhô Romualdo

Nhô Romualdo, um que era pai de tantos. Espia, que aquelas malocas quase todas eram de filhos seus. Uns quinze por certo. Diz que foram doze com Dona Sebastiana e mais três com a Dona Suzete, que tomou o posto da finada depois de uma chuva de raio. Foi num descuido da velha trabalhadeira, que, num dizer de páro-não, continuou tirando mandioca mesmo depois do céu ficar prá mais de preto, no anúncio do temporal. Acharam a Sebastiana lá mesmo na roça, durinha que tava toda e mais negrinha, mas segurava em prumo, o braço apontando para o céu, como se fosse por motivo de honra, a última macaxeira, que, dizem todos, para tirar de sua mão foi preciso é quebrar os dedos da velha.
Tava tal-que, hora de almoçar. Num não dizer de dois amigos, como os quais Jordão e Romualdo. E fizeram as honras, apresento de Quinlhão, amigo seu, vindo das terras do longe terreno que era beira do mar e do Zé Canela, que era sujeito de pouca fé este, mas que guinava os ouvidos para escutar as histórias. Foram os quatro de olhar sorrido para a morada do Romualdo, dia de galinha caipira. Encontraram Suzete no fogão de barro, abanando lenha. Que fez foi além-de, tirou cadeira para todos sentarem. Mais a água da moringa, nas cuias. A mulher do Romualdo, de mais respeito se fazia, e ralhou com Zé Canela, que não tirou a sandália de couro surrado, já pelas tantas, para adentrar o terreiro de chão batido que formava a cozinha, ela mesma entrada da casa.
"Podem sentarem!"-dizer da Dona Suzete perante o acanho dos três, acabrunhados. Tinha a mesa recém construída pelo Romualdo, matéria de angelim, que se encostava na única meia-parede que se estendia para o lado do fogão e do forno. Pro cima da mesa, tinha é restos de bolacha e biscoito e uma panela de ferro com café preto, passado sem coar mesmo, apenas no descanso do pó para o fundo da panela, auxiliado era pelo uso de uma lenha em brasa, que continuava acesa bem ali do lado da tigela. Fazer mesmo dos tapuios, que preparar café em fogueira se dá é assim, com o uso da brasa, para mandar o pó fervido descansar no fundo. Se via que tinha ali muitos bacurizinhos, que faziam a bagunça da mesa em modo de não vencer. Mais que tivesse ralhos da Suzete, algum moleque havia de pegar bolacha escondida e fazer de sujar a mesa novamente. Apesar de dar castigo e pegar sova de cipó-titica.
"Muito obrigado, Nhóra". Era Jordão que dava o aceno primeiro do encontro. E o coro dos outros dois fizeram que seguiram o primeiro. "Nhóra", "Nhóra". "Pois é senhores, benvindos aí a minha tapera, que pouco tem mas muito se dá", anunciou Romualdo. "Este aí, Seu Jordão, velho amigo, faz tempo que não aparece por estas bandas, tá é de mal com a gente, pô?", continuou. "Fale isto não Romualdo, que aqui é terra minha também, ocês tudo são é como meus parente. Tô mesmo é ocupado pelas bandas lá da várzea, onde tô é c'umas cabêças de gado criando. Mas vindo venho agora, trago comigo aí uns compadres, que tão de viagem para a cidade grande e tão um pouco precisando de paragem por uns dias, que sei que de lugar para ficar é sempre farto por aqui, mas-de, ainda, com a hospedagem especial do Sinhô, velho amigo Romualdo". "Faz certo de pensar, Sinhõ Jordão, gente nova é que apreciamos por estas bandas, inda mas vindo em paz e com motivo de conhecer nossa terra, e saborear da nossa comida, que graças ao bom Deus, tem de muito aqui sempre!".

Um comentário:

Anônimo disse...

....suas reflexões me ajudou muitissimo e mudei o meu ponto de vista sobre várias coisas,você é uma pessoa que faz a diferença.Felicidades e tudo de bom....